Depois de ter chumbado na oral de DC – e fui com 13 a oral – ninguém espera ouvir da minha boca nada de muito positivo sobre as orais.
Mas na realidade são uns bichinhos curiosos. Daqueles que mordem no cú mas, ainda assim, são uns bichos curiosos. Detestáveis, mas muito ricos. Faço-vos um pequeno relato da minha, parece que famosa, oral de DC.
.
O assistente da cadeira – que fazia anos do dia da oral – chega com 30 mins. de atraso. A oral que devia ter começado as 8:30 só começa depois das nove. Tudo correu mal nessa manhã: desde não ter pregado olho a noite inteira passando pelo facto da máquina de café não ter funcionado e de o bar estar fechado para férias. Nervoso, cansado e sem café valeram me os cigarros.
.
Fiquei num grupo horrível: Dois dos melhores alunos do nosso ano estavam no mesmo grupo que eu. Nem que fosse por comparação já estava lixado. Mas nem calculava o quão lixado estava. Não sei a que horas começou a minha oral. Era o penúltimo num grupo de 6/7 pessoas por isso tive imenso tempo para acumular o nervosismo todo e entrar na sala com um sorrisinho daqueles bem nervosos. Trocou-se dois dedos de conversa, rápidos e de circunstância.
.
GM (o assistente): Então P., diga me lá o que é a reserva relativa
.
Tenho tempo para referir um artigo da CRP, digo matéria concorrencial pelo meio, mas sou prontamente interrompido: parece que não estou a responder á pergunta.
.
GM: Mas o que eu perguntei não é isso.
P: Ah, desculpe. Não devo ter percebido a pergunta. Pode repetir a pergunta? – digo eu olhando primeiro para o assistente e depois para o regente, ainda com o sorriso nervoso.
.
GM: O que é a reserva relativa?
P: A reserva relativa?
.
Silencio durante uns 15 segundos olho para o ar e para a CRP
.
P: Podia repetir a pergunta?
GM: O que é a reserva relativa?
.
Silencio durante os 30 segundos que demoro a encontrar um artigo que já não me lembro se cheguei a encontrar ou disse um artigo errado se o que é que foi.
..
P: Podia repetir a pergunta?
GM: O que é a reserva relativa?
.
Olho – provavelmente desesperado - para o regente da cadeira. Resolvo por me a olhar outra vez para a CRP e começo a folhear aquela merda de trás para a frente e de frente para trás. Entretanto o regente sai da sala e volta a entrar passados uns 30 segundos. Não sei dizer quanto tempo estive em silêncio. Sentada atrás de mim estava uma rapariga que conheci na faculdade e que durante o primeiro semestre vim a descobrir que os nossos pais são primos direitos – a única pessoa a assistir á oral. A certa altura já não me lembrava qual era o raio da pergunta outra vez.
.
P: Podia repetir a pergunta?
GM: Ó P. isto assim não pode ser… já é a quarta vez que pede para repetir a pergunta – Diz o assistente já meio irritado.
.
Volta a fazer-se silêncio na sala. Não sei sequer para onde olhar, resolvo meter a cabeça na CRP.
.
RM (o regente): O que é a interpretação conforme a constituição?
.
.
Estava nervoso, agora fiquei em pânico: Nem sequer consegui pensar «Tou fodido»
.
.
Sempre achei que a estória das brancas era desculpa. Nunca me tinha acontecido. Vazio, silêncio, nada. Nada… Se fosse uma aula o regente já tinha debitado um «Que horror, homem!» umas três ou quatro vezes. Como era uma oral conteve-se, mas estava escrito na cara.
A oral acaba mais ou menos aqui. Ainda perguntam o que se passa, fazem uns quantos comentários - tenho fama de ser bom aluno naquela casa, participo nas aulas práticas e em constitucional temos liberdade para participar nas aulas teóricas, coisa que faço frequentemente. Os professores conhecem me pelo nome, ninguém estava espera daquilo. Acabam por atribuir as culpas daquele infortúnio ao facto de não ter dormido e a coisa fica por aí. Dizem, por palavras mais ou menos veladas, que estão de mãos atadas e eu ainda largo um «eu compreendo» antes de me levantar da cadeira e sair da sala.
Os meus colegas estavam mesmo á porta. Devia estar completamente lívido. Depois ainda tive que falar um bocado com eles, explicar-lhes aquela miséria. É tradição ficar a espera da nota das orais. Ainda fiquei meio na dúvida se ficava se ia. Primeiro fui fumar um cigarro, a modos que para arrebitar, mas estava nas lonas. Quando voltei ainda fiquei a ouvir a conversa do DC com a CC mas rapidamente resolvi ir para casa e quebrar a tradição.
.
CC: Não ficas?
P: Para quê? – Encolhendo os braços e ainda com sorrisos nervosos
.
Mais tarde acabei por saber que tinha tido 5 na oral. Ridículo…
Parece que a CG ainda disse aos professores que me deviam ter passado, ou qualquer coisa do género. Eu não acho nada disso. Estou ali para ser avaliado e quero ser bem avaliado. A minha oral foi miserável, e minha nota também. Não teve conteúdo nenhum e parece-me que balbuciar não conta como forma. Não havia ali nada susceptível de ser avaliado, resultado: Não houve aproveitamento. É assim, na vida engolem-se muitos sapos e este é um deles. É para aprender. Verdade seja dita: se tivesse uma boa solidez de conhecimentos não me tinha dado um fanico e teria tido muito melhor nota.
A única coisa que parece é que podia ter sido poupado ao 5 e ter tido «falta» ou «desistência». Mas ainda «parecem-me» mais umas coisas:
.
A CG ter tido a coragem de defender um colega e enfrentar os professores: Grande mulher! Não era preciso, e pior: acho até que não tem grande razão. Mas quando um gajo tem uma mulher daquela categoria a defende-lo e normal que fique (só um bocadinho) derretido.
O DC ter andado a espalhar a toda a gente o raio de chumbo que tive na oral. Na sexta-feira toda a gente que estava na oral de Civil que fui assistir sabia dessa brincadeira.
Com a carrada de rumores, mexericos e merdas que toda a gente andava a sussurrar nos corredores sobre esse gajo era normal que percebesse alguma coisa sobre a invasão que é ter toda gente a falar dele. O gajo parece muito inteligente mas, pelos vistos, não pode ser… Poucas foram as pessoas que me vieram contar os mexericos desse gajo e não ouviram um sermão para o deixar em paz. DC: Mete-te na tua vida. Filho da mãe…
.
O GM (o assistente) sentiu-se tão mal com aquela situação toda que nem foi capaz de olhar para mim quando, num outro dia qualquer, o encontrei a descer as escadas. Baixou a cara e quis fingir que não me viu. Como faço com todos os professores que encontro cumprimentei-o. Ele, obviamente atrapalhado, retribuiu o cumprimento - com desilusão na voz. Se alguma vez acontecer este texto passar lhe pelas mãos digo-lhe: Ó homem! Fez aquilo que se espera que faça. Tenho pena de o ter desiludido, mas, desculpe lá, não me vou martirizar por isso. Sinto me pior por ter desiludido os meus pais, eu próprio, os meus avós… Pior: grande parte daqueles nervos são culpa minha. Não da sua. Não vale a pena... Por isso desculpe lá qualquer coisinha. A ver se para o ano não repito a gracinha. Agora, só espero é que continue olhar-me na cara quando passo por si, but no hard feelings, ok?
,
.
É muito curioso ver o que acontece na cabeça de quem chumba numa oral.
Passa tudo pela cabeça, é incrível.
O durante é singular. A boca seca completamente, não há ponta de saliva na boca. Evapora-se como que por magia. Como se não bastasse os olhos também secam, o que para quem usa lentes é complicado. As lentes começaram a querer descer pelos olhos e vi-me obrigado a estar a escarafunchar os olhos como se fosse uma miúda num pranto.
Quando acaba mas ainda estás dentro da sala sentes-te completamente impotente. Não controlas a cabeça, está tudo embaraçado. Não sabia sequer se podia pedir para passar alguém a frente para ver se a coisa melhorava e fazer a oral depois. Como fui incapaz de me aproveitar da situação – até porque sempre achei que a estória das brancas era uma desculpa mais ou menos airosa – resolvi aguentei-me á bronca.
Depois quando se encontram os colegas fora da sala.
Primeiro não se sente nada, fica-se de cabeça a roda e sem saber como é que se vai para casa. Senti-me completamente humilhado, vexado. Depois la te orientas e vais para casa. Não vale a pena ficar a espera da nota e ficar ali a degradar mais um bocado.
Depois de me ter metido no metro no sentido errado.
Sentes te triste, deprimido. Chegas a casa e vais procurar outro curso na net. Não tens sono não tens nada.
.
Depois dormes, comes, fumas um cigarro e ficas pronto para outra, até porque na próxima segunda-feira há mais festa e não há cá tempo para «coitadinhos»
.
Que raio de maneira de se torturar os gajos que fazem cursos de direito.
Passa depressa é o que vale.
E ficas com aquela sensação de «fogo-no-cu» que põe um gajo assustado e o faz correr.
E o que ainda tenho que correr
Fuooodasse!